Jubileu 2025: A Sociedade Humana

Jubileu 2025: A Sociedade Humana

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Talvez este seja o tema mais amplo a ser trabalhado dentre os cadernos do Concílio estudados neste tempo jubilar. Na minha opinião, a sociedade humana está em crise, isso porque, enquanto indivíduos, estamos enfrentando sérias incompreensões acerca daquilo que é essencial para bem viver. O presente texto tem o objetivo de trazer à luz algumas reflexões conciliares, principalmente na encíclica Gaudium et Spes, a qual ainda hoje se torna uma valiosa referência para refletir os desafios dos tempos atuais.

A premissa que podemos extrair dos parágrafos 23 a 32 da Gaudium et Spes, sobre A comunidade humana, apresenta o progresso técnico em que a sociedade já se encontrava na década de 60. Junto com este progresso que agora se acentua principalmente com a inteligência artificial, tem em contrapartida, conforme observa-se a partir dos vários conflitos que passamos, um regresso no diálogo fraterno entre os seres humanos.

Em larga escala se acentuam conflitos mundiais, tais como estamos acompanhando entre Irã e Israel, adversários de longa data. A Constituição conciliar no seu número 28 reitera um princípio anunciado na regra de ouro de Jesus: “o respeito e a caridade devem estender-se também àqueles que, em assuntos sociais, políticos ou também religiosos, pensam ou agem de maneira diferente da nossa”, isso porque, “quanto mais intimamente com humanidade e caridade compreendermos suas maneiras de pensar, tanto mais facilmente poderemos iniciar um diálogo com eles”.

É claro que a recomendação não é sermos passivos diante do Bem e da Verdade, mas sim agir com caridade e benevolência diante das situações divergentes, sempre distinguindo entre o pecado, que deve ser rejeitado, e o pecador, que deve ser acolhido e respeitado, tal como o filho Pródigo do evangelho de Lucas (15,11-32). O que predomina é o diálogo, este é capaz de superar todas as barreiras do ódio e da indiferença, assim como já refletimos em nosso texto anterior.

É premente que o ser humano se torne mais humano, isto é, voltar-se para aquele mistério que o envolve, oriundo da graça de Deus, que nos fez a Sua imagem e semelhança. Papa Leão XIV, falando a bispos italianos, citou vários fatores que estão transformando a sociedade, como a inteligência artificial, a economia e as mídias sociais. Nesse cenário, “a dignidade do ser humano corre o risco de ser nivelada ou esquecida, substituída por funções, automatismos e simulações”.

“Mas a pessoa não é um sistema de algoritmos: é uma criatura, uma relação, um mistério”, disse o papa. “Permitam-me, então, expressar uma esperança: que o caminho das Igrejas na Itália inclua, em simbiose coerente com a centralidade de Jesus, a visão antropológica como instrumento essencial de discernimento pastoral”. E o santo padre conclui: “Anúncio do Evangelho, paz, dignidade humana, diálogo: essas são as coordenadas através das quais vocês podem ser uma Igreja que encarna o Evangelho e é sinal do Reino de Deus”, enfatizou Leão XIV.

Estas coordenadas não servem apenas para a igreja italiana, mas torna-se, por suposto, um remédio para toda a humanidade, para que se reencontrem com aquilo que lhe é essencial. Torna-se evidente que a crise da sociedade humana não é apenas uma crise de estruturas ou de sistemas, mas, sobretudo, uma crise de sentido e de relacionamento. Vivemos sim um tempo em que a técnica avança em velocidade vertiginosa, mas a fraternidade, o diálogo e a solidariedade não podem, de forma alguma, andar na contramão dessa evolução. A Igreja, fiel à sua missão profética, nos recorda que o progresso autêntico da humanidade só será possível quando for acompanhado por um crescimento proporcional na ética, na justiça e na espiritualidade.

Nesse horizonte, o chamado à paz e ao diálogo assume um papel decisivo. A paz não é apenas ausência de guerra, mas fruto da justiça, da empatia e da escuta mútua. Como bem sublinhou o Papa Leão XIV, é preciso resgatar a antropologia cristã, que reconhece no ser humano um mistério, uma relação viva com Deus e com os outros, e não um dado estatístico ou funcional.

Portanto, a tarefa que se impõe a todos nós, cristãos e homens e mulheres de boa vontade, é construir uma sociedade mais humana, mais fraterna e mais justa, em que os valores do Evangelho sejam fermento de renovação e esperança. A educação é um campo extremante fértil para tal empreitada. Que este Jubileu, tempo de graça e conversão, nos inspire a sermos construtores de pontes, cultivadores da paz e testemunhas do amor que não se cansa de crer na humanidade.

Diego Garcia – pastoralista

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